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Título
Muitos ainda resistem ao progresso de Niterói
Descrição
A reportagem traça um panorama do impacto urbanístico, econômico e social sofrido por Niterói com a abertura da Ponte Rio-Niterói, contrapondo os anseios de modernidade aos costumes entendidos como "tradicionais" que ainda resistem na cidade. O texto destaca as transformações viárias voltadas para integrar a capital fluminense às rodovias federais e às praias oceânicas, enquanto antigos moradores e cenários rústicos dão um tom de nostalgia à transição.
Data
fevereiro 4, 1974
Veículo
Palavras-chave
abertura da Ponte Rio-Niterói | infraestrutura urbana | modernidade | Projeto Praia Grande | efeitos da Ponte Rio-Niterói > turismo
Transcrição do texto
[Legenda da foto superior]: O contraste violento entre o progresso modernizante que a Ponte Rio-Niterói acarreta em matéria de transportes e o animal de tração que ainda existe (foto) dá um toque de nostálgica poesia.
MUITOS AINDA RESISTEM AO PROGRESSO DE NITERÓI!
Os jericos, com seus balaios de verdura, quebram a paisagem de concreto armado, nas manhãs dos bairros da Zona Sul, resistindo no tempo e disputando o espaço com os automóveis e coletivos.
A Capital fluminense, que está sofrendo a grande transformação de sua história — no 401º ano de sua fundação —, tem um momento de poesia, ante a ranzinza da verdura que ainda é vendida à porta de casa, pelos chacareiros de Pendotiba e Itaipu.
Em contraste, nas ruas e avenidas que demandam ao acesso da Ponte, o tráfego desde as primeiras horas é intenso, com os engarrafamentos em alguns pontos nos coroando, no entanto, ao drama de sistema rodoviário de pista baixa, e que Niterói prepara-se para a Ponte, que abrirá em breve.
A Cidade deverá receber extensa área verde para lazer, constituída de 1 milhão e 200 mil metros quadrados de jardins, bosques, centros de recreação, pavilhões para exposições, teatros e centros artísticos.
É o Projeto Praia Grande, do plano de reurbanização de preservação da "natureza para o convívio humano", afastando de sua área os carros, ou conservando-os distante do barulho da grande cidade, para o agrado paladino da cidade e de regiões vizinhas.
O projeto, principal ponto do plano de reurbanização de Niterói, tem três mil metros de extensão no local, visando a recuperação e construção das praias de bairros a começar pelo Ingá e Vital Brazil — um projeto arrojado que depois de concluído por seu plano, recebeu um prêmio nacional de arquitetura. Visa a preservação das áreas verdes de bairros, iniciada pelas praias oceânicas, num esforço que, se necessário, pode ser sacrificado nos projetos de arquitetura.
As dificuldades, segundo os técnicos encarregados do estudo urbano de Niterói, é que a Cidade com 400 anos, jamais teve um plano de urbanismo, crescendo sem qualquer orientação. Desenvolvem, hoje, para as soluções de emergência, como as de tráfego, são necessários investimentos muito elevados, principalmente pela reestruturação de desapropriação. Por isso, está sendo usada a estratégia de encarecer soluções novas, como a ligação da via expressa através do Morro do Estado, Icaraí e Morro de Pendotiba ou da orla marítima, pelo Gragoatá e Praia da Boa Vista, passando no Mirante da Boa Viagem.
AS MUDANÇAS
— Vamos perder a tranquilidade — dizem, nas ruas calmas, onde as crianças podiam brincar. Entendemos isso. É o progresso que chega, trazendo o movimento de veículos, mas, no entanto, temos consciência de o que temos. As cidades são como as pessoas: têm a infância irresponsável, a juventude agitada e a velhice ranzinza. Acho que estamos na juventude, quando as coisas não andam bem e as cabeças começam a esquentar.
O velho morador, cabelos brancos, olhar terno com o brilho da mocidade, prefere ficar no anonimato. Diz, com orgulho, porém, que nasceu e sempre viveu no bairro de Fonseca: "um lugar tranquilo, que vai conservar a sua identidade, as suas casas com jardins, varandas, quintal e as ruas arborizadas".
Ele está olhando o trabalho das turmas do Departamento de Estradas de Rodagem, que executam as tarefas de recuperação asfáltica da Alameda São Boaventura, principal via de escoamento e acesso à Ponte Rio-Niterói.
No Fonseca está o que existe de mais tradicional na Capital fluminense: são as famílias mais antigas da cidade, que se sucedem em gerações, conservando os hábitos e costumes de um tempo em que se demorava muito para chegar às barcas, nos bondes da Cantareira, e daí até ao Rio, mais de 40 minutos nas barcas e momentos agradáveis, compunham a ligação entre as duas cidades. Hoje, o bairro, por força da construção da ponte que vai ao mais próximo aos terminais do tráfego com a Guanabara, ganha os seus prédios de apartamentos, junto à Alameda São Boaventura, conservando, no entanto, a sua identidade nas ruas transversais — onde se vive sem vizinhos, camaradagem e solidariedade comunitária.
PREPARAÇÃO
Não é apenas a Alameda São Boaventura que está sendo modelada para receber o tráfego da Ponte Rio-Niterói. A Avenida do Contorno e a Rua Benjamin Constant estão em turnos do DER fluminense, por delegação do DNER, recuperando o asfalto e preparando-as para o volume de tráfego que o funcionamento decorrente da nova ligação com a Guanabara.
O Governo do Estado do Rio, também através do Departamento de Estradas de Rodagem, vem realizando a obra de duplicação da rodovia que, passando por São Gonçalo, a Itaboraí, fundamental ao tráfego para os municípios da Região dos Lagos e Norte fluminense.
Em São Gonçalo, a Prefeitura municipal já iniciou as sondagens para a construção de uma nova avenida, como opção para o tráfego das ruas Porto do Velho e Sete Pontes, aproveitando o leito da ramal ferroviário, extinto por seu antieconômico. E o DNER, segundo anunciou o Ministério dos Transportes, vai abrir concorrência, ainda neste semestre, para a construção de uma via expressa, pela orla marítima, ligando os terminais da Ponte a Manilha — entroncamento rodoviário para as regiões do mar e serra.
A LITORÂNEA
A mais importante obra de apoio da Ponte está sendo executada, no entanto, a partir da Zona Sul da Capital fluminense: a Rodovia Litorânea, que vai ligar Jurujuba, na Capital, a Rio das Ostras, em Casimiro de Abreu.
Será a primeira estrada projetada, pelo Governador Raimundo Padilha, para o turismo, que tem um traçado que não prejudicará a natureza, conservando todos os recantos, belezas naturais e áreas verdes, contornando as lagoas de Piratininga, Itaipu, Maricá, Saquarema e Araruama. Além de facilitar o tráfego para a Região dos Lagos, abre perspectivas à criação de novos polos de turismo.
Em função da estrada, a partir de Itaipu, diversos projetos já estão sendo implantados, pela iniciativa privada, para a extração de turismo, alguns com indústrias de renome internacional, com as do escritório do arquiteto Lúcio Costa, que indicou os planos brasileiros, como a réplica da Disneylandia, que será implantada, também em Maricá, por um grupo financeiro japonês.
O importante — entendem os arquitetos — é que os municípios de turismo vão receber a mesma beleza e tranquilidade de outrora, nas lagoas, já explorada turisticamente, com a vantagem de facilitar a comunicação com o Grande Rio. Será possível, nela, a temporada de verão da família, enquanto os seus integrantes que trabalham, com uma pequena viagem de meia hora, possam estar em Niterói ou Guanabara.
VALORIZAÇÃO
Nem só de turismo vive, no entanto, a região beneficiada pela construção da Ponte Rio-Niterói. A facilidade de comunicação com a área do Grande Rio, e o centro comercial de Guanabara, está auxiliando, também, a atração de investimentos para a área industrial, já que o custo de lote é reduzido, o Governo fluminense garante a energia elétrica e isenção das empresas, e o seu controle, o financiamento do empreendimento.
Em Maricá, numa área reivindicada, a Prefeitura já está tratando de uma área de loteamentos abandonados (120 mil lotes), para a criação do seu distrito industrial.
O fenômeno da descoberta deste lado da baía está caracterizado, ainda, nos investimentos do setor comercial, com o estabelecimento de um novo centro de negócios, pelos supermercados, vindo os grandes daquele ramo que obtiveram atividades no Estado do Rio e a solicitação de um comércio de modas, que está transformando a face das ruas do Bairro de Icaraí, a começar pela Gavião Peixoto e Moreira César, sem falar no setor de investimentos, com o aumento de investimentos nos bairros da orla marítima oceânica, de Piratininga e Itaipu.
Um volume crescente de investimentos na área de mercado imobiliário: a média anual está na casa de 35 prédios novos por semestre, inclusive a escassez de mão de obra criou a valorização dos profissionais liberais como arquitetos, multiplicando-se as ofertas de novas oportunidades nos bairros fechados, os condomínios horizontais das chamadas cidades satélites, que estão nascendo, em locais de beleza privilegiada, como Itaipu e Pendotiba.
O POÉTICO
O importante, no entanto, é que Niterói não perdeu ainda o poético de sua existência, como as praças de bairros, a vizinhança solidária, e os passeios pelas praias de Icaraí e Saco de São Francisco.
Até quando o progresso não desmantelará a velha província de Araribóia, com seus segredos de espanto, e a ranzinza de seus caranguejos?
— Nós vamos continuar fluminenses. Aceitamos o progresso mas queremos o passado — lembra o morador do Fonseca, aí olhando o movimento de veículos pela Alameda São Boaventura, o marco de marcos, quando a grande ponte — com seus 14 mil metros de extensão — entrar em tráfego, ligando as duas capitais, em poucos minutos.
