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Título
Além da Ponte, outra Barra da Tijuca
Descrição
A reportagem traça um paralelo entre o desenvolvimento da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e a iminente transformação da Região Oceânica de Niterói (composta pelas praias de Itaipu, Piratininga e Itacoatiara) diante da futura inauguração da Ponte Rio-Niterói. Até então isolada e habitada majoritariamente por colônias de pescadores, a região começava a sofrer os impactos da especulação imobiliária, do surgimento de loteamentos e da invasão turística nos fins de semana.
Data
outubro 5, 1973
Veículo
Palavras-chave
efeitos da Ponte Rio-Niterói > crescimento populacional | efeitos da Ponte Rio-Niterói > crescimento urbano | efeitos da Ponte Rio-Niterói | poluição
Transcrição do texto
ALÉM DA PONTE, OUTRA BARRA DA TIJUCA
Itaipu, até pouco tempo, era apenas uma praia de pescadores. E eles ainda são a maior parte de sua população fixa.
Itacoatiara, em Niterói, foi descoberta há mais de 10 anos, quando um grupo construiu ali suas casas para fins de semana. Praias próximas, como Itaipu e Piratininga, eram apenas aldeias de pescadores, três anos atrás, quando começaram a seguir a vocação da vizinha pioneira. Hoje, as três praias — e mais Camboinhas, prolongamento de Itaipu — formam uma espécie de Barra da Tijuca do outro lado da Baía, inclusive porque são praias de mar aberto. Piratininga e Itaipu já imitam a Barra em tudo — das carrocinhas de refrescos aos hotéis de alta rotatividade. E, com a inauguração da Ponte Rio-Niterói, Itacoatiara está ameaçada de perder sua condição de condomínio fechado, que conseguiu manter até agora.
Niterói (Sucursal) — Já no caminho começam as semelhanças com a Barra, no Rio. A pequena estrada, asfaltada, que em alguns pontos da passagem difícil para dois carros, lembra as vezes a Avenida Niemeyer. Seu trecho mais bonito é a descida da serra de Itaipu, de onde se tem uma visão ampla de toda a Zona Sul do Rio e das ilhas da entrada da Barra.
Nas manhãs de sábados e domingos — e nos fins de tarde desses dias, no sentido da volta — é que a Estrada de Itaipu lembra mais todo o caminho da Barra da Tijuca, pelo grande engarrafamento, para o qual contribuem os ônibus apinhados de gente dos lugarejos próximos. À beira da Estrada, os bares, cuja especialidade maior é a batida de limão, e as barraquinhas de milho verde e cachorro-quente. Porém, o que mais impressiona os moradores do local — pescadores, que ocupam pequenas casas de alvenaria e telha canal, agrupadas em colônia, no caso de Piratininga — são os hotéis de alta rotatividade. Já há sucursais do Miami e do Havaí, dois dos mais conhecidos hotéis da Barra, que em suas versões fluminenses também têm ar refrigerado, banheiro de luxo e todo o conforto. Com as novas e modernas casas, eles passam a formar um conjunto curioso, ao lado das casas dos pescadores.
ANCHIETA NA ORIGEM
Itaipu surgiu em torno de uma igreja construída pelos índios sob a orientação do Padre Anchieta. A igrejinha existe até hoje, tombada pelo Patrimônio, junto com um convento abandonado e as ruínas de um pequeno forte. Mas um clube de bancários desrespeitou a arquitetura desse forte, alterando-a inclusive com uma cobertura de alumínio. Características do local são também as dunas e os sambaquis (cemitérios índios, ainda não explorados). O pessoal de Niterói passou a frequentar Itaipu depois que piorou o problema da poluição das praias da Baía de Guanabara. Depois vieram os cariocas. Com o aumento de frequência seguiu-se a abertura de um hotel-restaurante, à beira da praia, violentando a paisagem. A Prefeitura garante que não autorizou sua construção, mas o fato é que ninguém toma nenhuma providência para derrubá-lo. Pouco adiante, em Camboinhas, que é uma espécie de continuação de Itaipu, há um enorme loteamento interditado há vários anos judicialmente, por discussão de propriedade.
Itacoatiara de certa forma continua imune à invasão. Como um autêntico condomínio fechado, seus moradores respeitam algumas exigências comuns dos que construíram casas lá (há pessoas de Niterói que inicialmente as construíram para fins de semana, mas hoje moram lá mesmo, com a estrada asfaltada, estando a poucos minutos do trabalho). Por exemplo, só as ruas principais — as de acesso à praia — são asfaltadas. As outras conservam obrigatoriamente o piso de terra batida. Uma cancela e um posto da Polícia Rodoviária à entrada do condomínio impedem o acesso de ônibus de excursionistas.
INVASÃO DE LOTEAMENTOS
A Prefeitura de Niterói não contratou nenhum plano urbanístico para a região, ao contrário do Rio, que tem o plano de Lúcio Costa para a Barra. E os problemas vão surgindo. Piratininga, por exemplo, está totalmente loteada e há mais de duas mil casas recém-construídas. A única providência da Prefeitura foi impedir a construção de edifícios, limitando o gabarito a dois pavimentos. Já funcionam em Piratininga restaurantes, uma boate e muitos bares que vivem do batido, peixe frito e cerveja. O mais famoso deles é o Bar do Tião, defronte a uma pequena enseada, de mar calmo.
A previsão de que a população de Niterói crescerá em 200 mil habitantes em cerca de um ano, depois da inauguração da Ponte, aumenta a fuga para as praias oceânicas. E o temor de que a previsão se concretize parece justificado diante do aumento assustador da especulação imobiliária em Icaraí — já superpovoado — e no Saco de São Francisco, outrora um recanto tranquilo da cidade.
Para facilitar o acesso às praias oceânicas, a Prefeitura está abrindo uma estrada opcional, que aproveita um antigo caminho: o Saco de São Francisco, através da Estrada da Cachoeira, ficará ligado a Pendotiba. Início da estrada para Itaipu, Itacoatiara e Piratininga. O DER planeja asfaltar ainda este ano a estrada de barro para Piratininga, muito precária.
O PERIGO DOS LOTES
Hoje, os terrenos nas três praias estão muito valorizados, mas os proprietários preferem não negociá-los por ora, pensando na abertura da Ponte ao tráfego. É o que acontece no Recreio de Uta, condomínio fechado, que se está transformando no ponto mais sofisticado da estrada de Itaipu. Muita discussão em torno de títulos de propriedade, na região, também assusta um pouco os compradores. Distante da praia, entretanto, ainda é fácil comprar terrenos com segurança e a melhor preço. Há firmas com escritórios à beira da estrada, das quais os corretores acenam com sua condição de membros do CRECI como garantia para os compradores.
Uma nova rodovia, já projetada, facilitará a descoberta dessas praias, pelos cariocas, a partir da inauguração da Ponte. A estrada ligará Niterói a Rio das Ostras (Município de Casimiro de Abreu) e será utilizada também pelos veranistas que ferem a região dos Lagos e a Cabo Frio, passando por Itaipu e praias vizinhas. Espécie de Rio-Santos no sentido Norte do Estado, ela sairá de Jurujuba, através de um túnel, até Piratininga, atingida assim em 15 minutos de carro. E aproveitará uma antiga ligação Itaipu-Itaipuaçu, esta última uma praia do Município de Maricá, descoberta no verão passado por grupos de jovens que acampam no local.
VIDA NOTURNA
Piratininga já funciona hoje como centro de diversão para a população de Niterói, inclusive em termos de vida noturna, com seus bares, restaurantes, boates e agora a construção de um drive-in. De todos, esses pontos de encontro noturno o mais frequentado é o Everton, antes pouco mais que um barzinho, hoje um restaurante-boate. Sua especialidade é uma batida espumante em diversos sabores.
No mar, nos sábados e domingos, tornam-se espetáculo de rotina as dezenas de iates de proprietários cariocas que fundeiam numa pequena enseada junto à pedra de Itaipu, para o banho de mar de seus ocupantes. Disso nasceu uma complicada — mas rendosa, em termos de pobreza — atividade para os filhos de pescadores locais. Os garotos se lançam ao mar e nadam de iate em iate, empurrando uma caixa de isopor cheia de refrigerantes gelados e laranjas que vendem ao pessoal dos barcos. O mesmo acontece numa enseada de Piratininga.
